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A arte da cerâmica

arte | Cerâmica | por Attos Henrique

 

Uma das formas mais antigas e ricas de expressão artística é a cerâmica. Hoje, ela permanece viva e continua a inspirar e cativar com sua versatilidade, beleza e profundidade histórica.

 

Com raízes em civilizações que datam de milhares de anos atrás, a cerâmica começou a ser produzida na China, por volta do III milênio a.C., e posteriormente,  em diversas partes do mundo, como Grécia, Egito e América Central. Sua magia reside na transformação do barro, material cru e maleável, em objetos duráveis e belos.

 

O processo de criação envolve três etapas principais: moldar, secar e queimar, após, adiciona-se os complementos, esmaltes e acabamentos que proporcionam cor e textura às peças. Uma das características mais cativantes da cerâmica é a sua diversidade. Ela abrange desde a simplicidade rústica até peças artísticas que desafiam os limites da criatividade. Podemos encontrá-la em pratos, copos, xícaras, vasos e em esculturas. A variedade de técnicas é impressionante! São elas a modelagem manual, o torno, a prensa de moldagem e até mesmo tecnologias de impressão em 3D. Cada técnica traz sua própria singularidade e permite que o artista explore diferentes aspectos para alcançar forma e função.

 

No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, uma nova geração está se tornando guardiã da transformação do barro em cerâmica. Cibele Dias de Souza é uma das jovens entre 16 e 25 anos, herdeiras das tradições ancestrais, são filhas, netas, bisnetas e até tataranetas de artesãs. Elas reconhecem o valor do artesanato como uma ferramenta essencial para a afirmação de suas identidades e a preservação das raízes culturais ancestrais. (Foto: Alexandre Disaro)

 

Não limitada a ser apenas uma manifestação artística, a cerâmica se encaixa como parte importante da cultura. Ela reflete a história de diversos povos e carrega significados profundos e simbólicos. Por exemplo, na China as cerâmicas eram utilizadas como vasos funerários, enquanto que na cultura japonesa, elas carregam  a expressão do conceito “wabi-sabi”, que celebra a beleza da imperfeição. No Ocidente, este tipo de produção desempenhou um papel fundamental na evolução da arte, desde os vasos gregos antigos até o movimento moderno, liderado por artistas como Bernard Leach e Lucie Rie.

 

Hoje, é possível ver em acervos de museus de todo o mundo, coleções de objetos cerâmicos, que demonstram seu valor cultural e artístico. No Brasil, a cerâmica possui raízes profundas, que remonta aos indígenas, e no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais, ela é reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial. Lá a arte é predominantemente produzida por mulheres, que muitas vezes, trabalham em condições simples e com recursos limitados, sem contar os desafios econômicos. São elas que desempenham um papel crucial na preservação da cultura e na geração de renda para suas famílias. Suas habilidades artesanais são uma forma de resistência para manter viva uma tradição passada de geração em geração.

 

Atualmente, a busca por singularidade e expressão individual caracterizam a cerâmica contemporânea. Os artistas procuram inovar, experimentar formas, texturas, esmaltes e técnicas, sem limitações e transcendendo para a esfera da arte. Descrita como uma grande referência para jovens artistas, Kimi Nii se destaca entre diversos ceramistas no país. Nascida em Hiroshima, Japão, migrou para São Paulo aos nove anos de idade com sua família. Formada em Desenho Industrial, desde o fim da década de 1970, suas mãos habilidosas dão vida a peças esmaltadas que tiram partido da textura e das tonalidades adquiridas com a queima do barro. Sua criatividade a levou a expor em diversos museus e centros culturais, inclusive, em 2009, foi selecionada para o “MoMa Destination Design Program”, com uma coleção exposta e comercializada no famoso museu nova-iorquino. 

 

Kimi Nii produz peças utilitárias e esculturas. O grande destaque são as cores mescladas com as texturas, alcançadas através da queima do barro. Os formatos ovais e verticais formam o mundo atual da escultura da ceramista.

 

Próxima da capital paulista, no alto das montanhas da Serra da Mantiqueira, Nicole Toldi experimenta e cria peças que parecem ter brotado da paisagem que a cerca. Sua inspiração é uma constante em sua vida, antes de focar nas produções cerâmicas atuou como paisagista e, hoje, conta com o apoio de sua filha Luiza em sua jornada criativa, dentro do desenvolvimento de conceitos para as novas coleções. A busca por formas e texturas resultam na celebração das riquezas da natureza, através de peças que são verdadeiras esculturas funcionais.

 

Denominada “Morada” esta coleção de cerâmicas criada por Nicole Toldi tem como inspiração ninhos, cupinzeiros, casulos, formigueiros, colmeias e nossas próprias casas. (Foto: Luiza Toldi)

 

Augusto Ribeiro, jovem designer, teve sua jornada de vida enraizada na argila e na criação. Seu avô foi um dos maiores produtores de tijolo no sul do estado do Rio de Janeiro e sua mãe mantém uma olaria, onde em visitas frequentes foi se familiarizando com os segredos do barro. Entre processos de design, prototipagem e a produção artesanal, fundou a Breve, marca que se destaca pela criação de objetos utilitários e decorativos. Cada peça criada é o resultado de um processo de experimentação contínua, inspirando-se em novos conceitos e métodos.

 

Augusto Ribeiro, designer responsável pela Breve, marca de cerâmicas que mistura o fazer artesanal com criação digital em experimentações que tomam formas variadas. (Foto: Marcelo França)

 

Contudo, os objetos de cerâmica estão cada vez mais presentes nas mesas e na decoração de interiores. Eles representam uma expressão única de estilo e elegância, além de trazerem o toque artesanal aos ambientes. Muito além do que simplesmente moldar o barro, a cerâmica é uma janela para a criatividade humana e uma conexão com as raízes culturais que moldaram nossa história.

 

A cada coleção, a Breve traz experimentações que se transformam em processos para a criação e produção das peças. O resultado são utilitários, objetos de decoração e peças de arte que exploram variadas técnicas em cerâmica.

 

fotos | Divulgação

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