O primeiro carro 100% brasileiro
A década era a de 1970 e o bom e velho Fusca precisava de um sucessor, um carro mais moderno, espaçoso e confortável. Nasceu, então, a VW Brasília, um projeto totalmente criado e desenvolvido em solo verde e amarelo. Naquela época, tudo vinha do exterior, mas o então presidente da Volskwagen deu carta branca a Márcio Piancastelli, designer que liderou a equipe criadora deste carro, lançado em 1973.
“Foi um dos poucos projetos feitos no Brasil numa época em que a maioria vinha de fora. Comprovar competência e know-how específico sempre foi um grande problema das filiais em relação às suas matrizes estrangeiras”, afirma Nelson Lopes, designer e diretor da Ícon Design, estúdio especializado na área automotiva. Segundo ele, o desafio foi criar um modelo mais confortável e espaçoso que o Fusca, mas mantendo a mesma mecânica e custo de produção equivalente. “O design automotivo atua tanto na otimização de processos de produção, quanto no poder de atração do consumidor”, explica.
E para conquistar a família brasileira, o novo carro chegou ostentando linhas retas. “O fato de a Brasília usar linhas retilíneas possibilitou uma melhor organização do espaço interno, melhorando a capacidade de carga e o conforto. Além disso, seu capô plano e seus para-lamas, que não eram destacados, como no Fusca, garantiam uma melhor noção do perímetro do carro na hora de estacionar, por exemplo. A visibilidade também foi um aspecto beneficiado pelo seu design”, enumera Nelson.
“O modelo antecipou as tendências de mercado e apresentou aos consumidores do País o moderno conceito de carroceria hatchback . Hoje, esse tipo de carroceria de dois volumes é o mais comercializado no mercado brasileiro”, assinala Luiz Alberto Veiga, diretor de Design & Package da Volkswagen para a América do Sul. “Qualquer pessoa que tivesse algum dinheiro a mais que o valor de um Fusca e uma família de no mínimo quatro pessoas se sentiria atraído pelo maior espaço interno e pelo desenho mais moderno da Brasília”, opina Nelson Lopes.
Luiz Alberto Veiga lembra que outras características do modelo eram “a grande área envidraçada e o ótimo aproveitamento do espaço na cabine, o que garantia aos ocupantes mais conforto a bordo”. Revolucionário, o modelo antecipava uma tendência que é usada como fórmula de sucesso pelas montadoras até hoje: pequeno por fora, grande por dentro. Deu certo: vendeu como água durante os nove anos de fabricação. Foram mais de 930 mil unidades. Na opinião de Nelson Lopes, “a Volkswagen sempre baseou sua imagem em qualidade e em um design que não emociona, mas que permanece elegante por muitos anos”. Imortalizada pela música “Pelados em Santos”, do grupo Mamonas Assassinas, não há dúvidas de que a Brasília marcou época nas ruas e estradas brasileiras por seu design único e 100% nacional.
Seu criador, o designer mineiro Márcio Piancastelli, era especialista no assunto. Nascido em 1936, faleceu neste ano. Chegou a desenhar móveis para a fábrica do pai e passou rapidamente pelo universo dos eletrodomésticos, mas seu sonho era outro. Desde criança desenhava carros e aos 26 anos tirou o segundo lugar em um concurso de design automotivo, o que lhe rendeu uma bolsa de estudos na Itália, no ateliê da Carrozzeria Ghia. Foi quando desistiu de estudar arquitetura e mergulhou de cabeça nos carros. Piancastelli foi um dos primeiros profissionais brasileiros do ramo. Além da Brasília, esteve por trás de criações como Gol, Saveiro, Parati, Santana e Voyage, todos da Volkswagen.
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