Projeto do artista visual Jorge Feitosa leva à Mata Lab obras autorais e um acervo formado ao longo de 20 anos em antiquários e feiras de antiguidades
Exposição e venda na Mata Lab reúnem peças garimpadas ao longo de duas décadas pelo artista Jorge Feitosa e pelo executivo Fábio Garcia, conectando antiguidade, design autoral e o conceito de “Memória da Matéria”
Uma bandeja de cobre do século XIX com cena de caça em relevo. Um vaso em cristal azul-cobalto das extintas Cristalleries de Nancy, na França. Uma cornucópia de cerâmica brasileira dos anos 1960 encontrada em um antiquário nos Estados Unidos e posteriormente “repatriada”. Fragmentos de história como esses agora integram o Acervo Jorge Feitosa, em exibição e venda na Mata Lab.
Mais do que peças decorativas, o acervo reúne objetos históricos e itens de design colecionados pelo artista Jorge Feitosa e por seu marido, o executivo Fábio Garcia, ao longo de duas décadas de viagens pelo Brasil, Europa, Ásia e Estados Unidos. A seleção é guiada por um conceito central na trajetória artística de Jorge: a “Memória da Matéria”, ideia que propõe que os objetos carregam marcas do tempo, afetos e histórias que sobrevivem às gerações.
O convite para ocupar a Mata Lab partiu de Carolina Friedmann, diretora executiva, e Tunico de Castro Filho, diretor criativo e curador do espaço, após identificarem afinidade com o olhar curatorial do casal — tanto na produção artística de Jorge quanto nas visitas à residência dos dois em Vinhedo, interior de São Paulo.

Memória, arqueologia afetiva e ressignificação
Segundo Jorge Feitosa, a construção do acervo ultrapassa o colecionismo tradicional. Para o artista, os objetos preservam rastros de quem os utilizou e dos contextos históricos que atravessaram.
O artista define sua pesquisa a partir de três pilares: arqueologia afetiva, salvaguarda e ressignificação. A proposta busca resgatar objetos descartados, proteger sua permanência e permitir que eles ganhem novos significados em diferentes contextos contemporâneos.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a filosofia japonesa Wabi-Sabi, que valoriza a beleza da imperfeição, do desgaste e da passagem do tempo. “Um desgaste não é um defeito, é biografia”, afirma o artista.

Colecionismo como construção de legado
Para Fábio Garcia, que iniciou sua relação com o colecionismo através de uma coleção de bolsas masculinas — atualmente com mais de 300 peças —, o processo se transformou em uma construção de identidade e legado.
A formação do acervo aconteceu de maneira orgânica, impulsionada pelo interesse do casal por antiquários, feiras e objetos encontrados durante viagens internacionais. Um dos episódios mais simbólicos ocorreu recentemente no Oregon, nos Estados Unidos, durante um roteiro pelas vinícolas do Vale do Willamette.
Na ocasião, Jorge encontrou um vaso de cerâmica Jaru em tom verde vibrante, mas precisou deixá-lo para trás por falta de espaço na bagagem. Após Fábio publicar a descoberta nas redes sociais, Tunico de Castro Filho entrou em contato e fez o convite para expandir o projeto para além das obras autorais do artista. O episódio motivou Fábio a retornar aos Estados Unidos para resgatar a peça — e, para sua surpresa, ele encontrou um segundo exemplar semelhante. Hoje, ambos fazem parte da exposição na Mata Lab.
Peças raras unem design, história e valor documental
Entre os destaques do acervo está um raro vaso em Cristal Doublé azul-cobalto, produzido pelas extintas Cristalleries de Nancy entre 1920 e 1935. A peça ganhou ainda mais relevância histórica após o fechamento da manufatura francesa depois da crise de 1929, tornando-se item disputado em coleções particulares e leilões internacionais.
Outro exemplar importante é o par de castiçais em cristal de chumbo da Cristallerie du Val Saint Lambert, da Bélgica, registrados no catálogo oficial da maison em 1956. Também chamam atenção as terrinas em faiança majólica da Maison GÉO, dos anos 1970, inspiradas na tradição Barbotine e originalmente criadas como embalagens colecionáveis para patês premium franceses.
As taças da coleção Golden Zuzana, desenhadas pelo tchecoslovaco Jozef Stanik em 1956, aparecem como outro ponto alto da curadoria. Reconhecidas pelas esferas de ouro encapsuladas em sua estrutura, as peças chegaram a ser escolhidas como presentes diplomáticos para o casamento do então Príncipe Charles e Lady Diana, além da cosmonauta Valentina Tereshkova.
A exposição também reúne peças raras de porcelana vintage da Yves Saint Laurent produzidas no Japão entre as décadas de 1980 e 1990 em parceria com a Yamaka International. Os itens, preservados em estado de Deadstock e New Old Stock, transitam entre conjuntos minimalistas inspirados na estética zen japonesa e estampas florais influenciadas pelo Art Déco.

Design brasileiro e resgate histórico
A produção brasileira ocupa papel importante no acervo. Entre os destaques está um par de castiçais de 43 centímetros em bronze maciço folheado a prata, fabricado pela Metalúrgica Abramo Eberle, no Rio Grande do Sul, por volta de 1930. A peça representa o auge da ourivesaria nacional e o período em que a empresa fornecia artigos de luxo para embaixadas, igrejas e residências da aristocracia brasileira.
Também integram a seleção diversos exemplares de cerâmica vintage brasileira produzidos entre as décadas de 1950 e 1970, incluindo vasos florais, cachepots rocaille, cornucópias texturizadas e castiçais com relevos botânicos, revelando a influência do modernismo europeu reinterpretado por ateliês nacionais.
Entre as histórias de redescoberta presentes no acervo está a de uma cornucópia brasileira dos anos 1960 encontrada por Jorge nos Estados Unidos no início dos anos 2000 e agora trazida de volta ao Brasil para integrar a exposição.
Luxo contemporâneo e consumo circular
A chegada do Acervo Jorge Feitosa à Mata Lab dialoga com um movimento crescente no universo do luxo contemporâneo: a valorização do autoral, do histórico e do consumo circular. A curadoria reforça a ideia de que o verdadeiro luxo está menos ligado à novidade e mais à narrativa e à memória que os objetos carregam.
SERVIÇO
Acervo Jorge Feitosa na Mata Lab
Alameda Rio Claro, 260 – Bela Vista, São Paulo (dentro do complexo Cidade Matarazzo)
Funcionamento: De segunda a sábado, das 10h às 22h; aos domingos, das 14h às 20h
fotos | Divulgação