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Rino Levi deixou importante legado para a arquitetura moderna brasileira

Uma enorme massa de imigrantes europeus chegou ao Brasil a partir do século XIX, fugindo da miséria que assombrava o continente. Os italianos vieram em peso e se espalharam pelo Sul e pelo Sudeste. Apesar da diversidade de etnias, representavam o maior grupo no estado de São Paulo, onde criaram raízes e influenciaram a cultura local: gastronomia, religião, festividades, esporte, comportamento… e arquitetura.

 

Neste último item, destaca-se Rino Levi, um dos grandes responsáveis pela configuração urbana de São Paulo. Nascido na capital paulista em 1901, era filho de pais italianos. “Ele estudou na Itália, na Escola Preparatória e de Aplicação para os Arquitetos Civis, em Milão, e logo se transferiu para a Escola Superior de Arquitetura de Roma, onde aprendeu não apenas os fundamentos, mas também as novas possibilidades da arquitetura moderna”, afirma a Profª Dra. Eunice Abascal, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.

  [caption id="attachment_3668" align="aligncenter" width="1280"]É praticamente impossível não notar o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, em São Paulo. De 1979, se sobressai na paisagem com seu desenho piramidal. É praticamente impossível não notar o prédio da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), na Avenida Paulista, em São Paulo. De 1979, se sobressai na paisagem com seu desenho piramidal.[/caption]

Um de seus mestres foi Marcello Piacentini, também conhecido como o architetto del regime (fascista) – ele também atuou em território verde-amarelo, onde assinou o Edifício Matarazzo, atual sede da Prefeitura de São Paulo.

 

“Quando retornou ao Brasil, em 1926, Rino foi contratado pela Companhia Construtora de Santos, do industrial e político Roberto Simonsen. Os dois fizeram parte de um grupo de intelectuais que engrenou um projeto industrialista”, afirma Fábio Fernandes Villela, professor doutor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A ideia era conduzir o Brasil à modernidade, ao progresso – e a industrialização era um conceito que traduzia esses anseios. Durante décadas, Rino trabalhou nesse sentido, chegando a projetar cerca de 80 fábricas.

  [caption id="attachment_3669" align="alignright" width="300"]Com um programa simples, a residência Olivo Gomes, de 1951, está localizada em São José dos Campos (SP). O projeto trabalha com um interessante jogo de volumes enquanto dialoga com o paisagismo de Burle Marx. Com um programa simples, a residência Olivo Gomes, de 1951, está localizada em São José dos Campos (SP). O projeto trabalha com um interessante jogo de volumes enquanto dialoga com o paisagismo de Burle Marx.[/caption]

A parceria com Simonsen é apenas uma das várias que Rino firmou durante sua vida. Essa maneira de trabalhar fez render importantes frutos para a arquitetura moderna brasileira e diversificou seu portfólio, que inclui edifícios residenciais, comerciais, além de hospitais, entre outros. O arquiteto de origem ucraniana Gregori Warchavchik, um dos principais nomes daquela geração, foi mais um profissional marcante em sua vida – ele, por sinal, também havia estudado na Itália e trabalhado durante dois anos com Marcello Piacentini.

 

“Os dois se conheceram logo quando Rino voltou da Itália. Eles iniciaram uma amizade e cooperação intelectual que permitiu a Rino transitar com liberdade no meio cultural paulistano, assim como praticar a arquitetura moderna”, relata Eunice Abascal, ao citar algumas de suas obras como exemplo: o Edifício Columbus, de 1934, o Cine Ufa Palácio, de 1936, e o Prudência e Capitaliza- ção, de 1944, uma “expressão elevada dos princípios modernos e de construção apurada, com técnicas avançadas e primorosa execução”, define.

  [caption id="attachment_3670" align="alignleft" width="300"]CM 165 IPAD_384 A arquitetura de hospitais era outra especialidade de Rino Levi, que venceu um concurso nacional para o Hospital Israelita Albert Einstein, no Morumbi, em São Paulo. O projeto de 1958 foi construído em 1971.[/caption]

“Com os arquitetos Roberto Cerqueira César e Luiz Roberto Carvalho Franco, Rino deixou uma marca importante no cenário cultural”, afirma a professora Eunice. Eles foram sócios do escritório de Rino e participaram, inclusive, do concurso para escolher o planopiloto de Brasília (leia, nesta edição, a matéria da seção Utopias), com um projeto que ficou entre os sete finalistas. “Com Vilanova Artigas, ele participou da reformulação do ensino de arquitetura na FAU-USP, onde atuou como professor”, complementa.

 

O trânsito entre os principais intelectuais do seu tempo foi notável. Vale notar que foi acompanhando um de seus parceiros, o renomado paisagista Burle Marx, que ele faleceu. O ano era 1965 e na ocasião os dois faziam uma expedição botânica no interior da Bahia. Rino Levi tinha 63 anos.

 

Para o Prof. Dr. Ênio Moro Junior, coordenador do curso de arquitetura e urbanismo do Centro Universitário Belas Artes, o seu legado é marcante para a construção da identidade da arquitetura nacional. “O seu trabalho é certamente uma das principais fontes para compreensão do modernismo no Brasil. A racionalidade de suas obras é poética, a composição é precisa, a estrutura desnuda e a plasticidade beira a dramaticidade”, enfatiza.

  [caption id="attachment_4238" align="alignleft" width="900"]Em parceria com o paisagista Burle Marx, o projeto do Paço Municipal de Santo André (SP) é datado de 1965. Rino integrou e acomodou espaços abertos, teatro e edifícios administrativos em um terreno de 110 mil m². Em parceria com o paisagista Burle Marx, o projeto do Paço Municipal de Santo André (SP) é datado de 1965. Rino integrou e acomodou espaços abertos, teatro e edifícios administrativos em um terreno de 110 mil m².[/caption]

Sobre o que faz a arquitetura de Rino especial, o professor é taxativo: “podemos observar que seus trabalhos, além de confirmarem a excelência na reflexão modernista, transcendem suas possibilidades ao flertar, de maneira muito consistente, com a pesquisa formal, a elegância de seus programas, a precisão técnica, a coerência nos processos construtivos e as decisões técnicas adequadas. Muitos arquitetos modernos afirmam este percurso, mas a obra de Rino Levi é especial e rigorosa”.

 

Imagens: Kenia Hernandes, Nelson Kon e divulgação

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