A arquitetura futurista do Musée des Confluences
O acervo é rico, com 2,2 milhões de objetos datados dos séculos XVII ao XXI, porém, o que mais chama a atenção no novo museu de história natural da cidade de Lyon, na França, é a sua arquitetura futurística e as soluções de sustentabilidade. Assinado pelo escritório austríaco Coop Himmelb(l)au, que venceu um concurso público em 2001, o Musée des Confluences, objetiva questionar os desafios do tempo, foi desenvolvido como um volume irregular, feito em vidro e aço inoxidável.
O caráter surpreendente da obra, a primeira do Coop Himmelb(l)au em solo francês, poderia ser algo esperado, já que o escritório é responsável por trabalhos emblemáticos, como o Museu BMW Welt, em Munique (Alemanha), o Museu de Arte de Akron, em Ohio (Estados Unidos), e a Casa da Música, em Aalborg (Dinamarca). Mas, para o arquiteto Wolf D. Prix, seu titular, “o museu não pretende ser um templo da cultura burguesa, mas um provedor de acesso ao conhecimento do nosso tempo”.
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Do outro lado do edifício, a cobertura é em chapas de aço inoxidável, com 3 mm de espessura, que receberam um tratamento especial com esferas de vidro em sua superfície. Seu desenho foi inspirado no formato de uma nuvem. A localização é estratégica, ao lado de uma rodovia e na confluência dos rios Rhône e Saône.[/caption]
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Com estrutura em aço, que utiliza o mesmo princípio de construção de uma ponte, foi possível a criação de todas as salas de exposição em balanço. O museu está apoiado em 12 pilares e três torres de concreto; estas últimas contêm as escadas de emergência e os sistemas elétrico e hidráulico.[/caption]
Localizado na confluência dos rios Rhône e Saône (daí o seu nome), em uma península que se estendeu artificialmente há 100 anos, o projeto é baseado em uma construção aberta e transitável que parece flutuar. Segundo o arquiteto, desde o início estava claro que sua implantação seria muito importante para a malha urbana. “O edifício deveria funcionar como entrada para os visitantes que se aproximam do sul, sendo também um ponto de partida para o desenvolvimento urbanístico”, explica.
Com uma área total de 46 mil m² e três pavimentos, ele foi dividido em duas partes. A primeira, chamada de “Cristal”, abriga uma entrada icônica. Feita com estrutura metálica e fechamento com painéis de vidro, conta com um átrio que dá acesso aos espaços expositivos. Nele, o destaque é uma estrutura de suporte no formato de uma gota invertida, que reduz o peso da construção ao mesmo tempo em que funciona como solução visual. Rampas em espiral e escadas rolantes fixas conectam os pavimentos.
Orientada em direção ao centro da cidade, a entrada beneficia-se de ampla iluminação natural. Aqui o destaque é a estrutura em forma de gota invertida, que funciona como um poço de gravidade, reduzindo o peso da estrutura em aço do edifício. Sua forma foi inspirada no fluxo turbulento criado pela confluência dos dois rios. No interior também foi usado o aço como revestimento.[/caption]
A segunda parte é chamada de “Nuvem”. Ela traz dois auditórios (um com 327 lugares, outro com 122), nove salas de exibição, sendo cinco temporárias e quatro permanentes, além de livraria e restaurante. Construída com um sistema estrutural semelhante ao de uma ponte, ela oferece a sensação de flutuar – deixando, portanto, as salas de exibição em balanço. O revestimento é feito em placas de aço inoxidável, que receberam tratamento especial com esferas de vidro. Com isso, reflete suavemente a luz e as cores da área circundante, além de não reter calor.
Nas salas de exposição, estruturas de aço no teto servem para instalar divisórias e configurar os espaços com facilidade. Em caso de manutenção, também é possível isolar apenas uma parte da sala.[/caption]
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A rota de circulação é fluída e integra escada, escada rolante e uma rampa. Um sistema motorizado controla a abertura de alguns brises, solução que garante entrada de ventilação natural no edifício e protege da insolação mais forte. Ao todo, foram usados 5.250 m² de vidro tipo extra-claro e 600 toneladas de aço.[/caption]
Em relação à sustentabilidade, a área “Cristal” é naturalmente iluminada e ventilada: o ar entra por meio de brises na fachada leste e sai pela cobertura. Por isso, dispensa o condicionamento de ar tradicional, instalado apenas no acesso principal e nos espaços de trabalho. Já a “Nuvem” funciona como um eficiente sistema de isolamento térmico, pois seu revestimento reflete a luminosidade do sol, ao invés de reter o seu calor. No telhado, um sistema foto voltaico ajuda na geração de energia.
O estilo desconstrutivista foi uma tentativa do escritório Coop Himmelb(l)au de chamar a atenção da população, além de tornar o local um marco estrutural. “As formas do Cristal representam o mundo em que vivemos todos os dias, enquanto a nuvem detém o conhecimento do futuro. O que é conhecido e o que será explorado são compreendidos no Musée des Confluences como um projeto espacial experimental para estimular a curiosidade do público”, finaliza Wolf Prix.
O museu será ligado a uma praça que está em construção. A ideia é que a união entre o prédio e o espaço público, que contará com local para caminhada, se torne um novo ponto de confluência da cidade.[/caption]
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O centro do “Cristal” é ocupado por uma estrutura de cerca de 12 metros de altura.[/caption]
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O esquema mostra as camadas que formam o edifício. Os espaços internos estão apoiados em uma estrutura no solo e recebem a cobertura, composta por uma carcaça envidraçada e outra de metal, que se complementam.[/caption]
Imagens: Manfred Klimek e Sergio Pirrone