Pitá ressignifica seu próprio espaço em reforma sensível no Edifício Itália
No coração de São Paulo, o escritório transforma sua sede em um laboratório vivo de design, memória e experimentação
Instalado desde 2020 no emblemático Edifício Itália, no centro de São Paulo, o Escritório Pitá sempre enxergou sua própria sede como um espaço em permanente diálogo com a cidade. Em meio à pandemia, a mudança para o prédio histórico marcou o início de uma ocupação viva, aberta a experimentações e atravessada pelo cotidiano urbano que pulsa do lado de fora.
Em 2025, o escritório voltou o olhar para dentro e promoveu uma reforma que vai além da atualização estética. O projeto nasceu do desejo de ressignificar o próprio espaço de trabalho, transformando-o em um verdadeiro laboratório criativo, onde texturas, cores e formas convivem sem medo do erro.

A maior sala de reunião do escritório foi pensada como um ambiente em constante transformação. Em parceria com a Tramari, a Pitá desenvolveu um revestimento de parede em tecido de duas camadas que revela, aos poucos, cenas do cotidiano do centro de São Paulo: os edifícios vizinhos, o pipoqueiro da esquina, os totens do metrô República e os postes clássicos da Avenida São Luís.

O tecido pode ser recortado manualmente, permitindo que imagens emerjam e componham novas narrativas visuais ao longo do tempo. Clientes, amigos e parceiros são convidados a interagir com a parede, criando composições próprias. Além do caráter poético, o revestimento cumpre uma função técnica essencial: toda a sala recebeu tratamento acústico com espuma isolante, garantindo silêncio e concentração em meio ao ritmo intenso da cidade.

Os resíduos do próprio tecido ganham nova vida em forma de ecobags, reforçando o compromisso com o reaproveitamento e a memória material do projeto.
Nesta sala mais íntima, o ponto de partida foi uma luminária antiga, garimpada em uma feira de antiguidades, que sempre conduziu o olhar para cima. A partir dela, o escritório decidiu transformar o teto no grande protagonista do ambiente.

Inspirada nos tetos ornamentados dos teatros clássicos — como o Theatro Municipal de São Paulo —, a nova pintura foi criada em colaboração com a Porú. A arte estabelece um elo entre arquitetura e cena, fazendo do espaço um palco para ideias, encontros e conversas, onde o teto passa a emoldurar o pensamento criativo.
Com vista para uma das avenidas mais simbólicas do centro, esta sala de reunião buscou inspiração na água e na vegetação — elementos que resistem mesmo quando ocultos pela urbanização. O novo papel de parede revela, de forma delicada, o traçado original dos rios que atravessavam o centro de São Paulo, hoje soterrados.

À distância, o desenho se apresenta de forma fluida; de perto, revela-se composto por estampas de folhas brasileiras como pau-brasil, palmito-jussara, aroeira-pimenteira e copaíba. Um lembrete silencioso das camadas naturais que sustentam a cidade e seguem presentes, ainda que invisíveis.

Na recepção, o tapete que acompanhou o escritório desde a mudança para o Edifício Itália começou a mostrar os sinais do tempo. Em vez de descartá-lo, a Pitá optou por higienizá-lo e transformá-lo em almofadas para a área do café — um gesto afetivo de ressignificação, que preserva a história do espaço ao mesmo tempo em que assume nova função. O antigo mural de folhagens deu lugar a uma nova estampa criada por um artista e arquiteto do próprio escritório, renovando a atmosfera sem perder identidade.

Mesmo nos espaços de passagem, a reforma revela sua força. No hall dos banheiros, apenas o uso preciso de cores e texturas foi suficiente para redesenhar completamente a percepção do ambiente. Cada escolha cromática foi pensada para despertar sensações e reforçar a ideia de que o cotidiano também pode — e deve — ser poético.

fotos | João Prado