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A imperfeição é o poder

coluna | por Victor Megido | @victor_megido

Foto em destaque: “Narciso era belo, e por isso castro, desdenhava as ninfas – pois que estava enamorado de si mesmo.”… Gide

Ciência, design e tecnologia melhoram as coisas, sejam alimentos, humanos, ambientes. É uma luta cultural, pois a natureza é imperfeita e assimétrica. O que não exclui a ordem. Mas, sem tal “desordem”, não haveria a vida ordenada como ela é. Marcelo Gleiser explica assim:

“Não é tanto a simetria, mas a presença de assimetria a responsável por algumas das propriedades mais básicas da Natureza. Não há dúvida de que a simetria tem o seu valor e continuará sendo útil na construção de modelos que descrevem a realidade física em que vivemos. Porém, por si só, a simetria é limitada: toda transformação que ocorre no mundo natural é resultado de alguma forma de desequilíbrio.”

Fazendo uma ponte com a arte, o físico vai além e nos remete ao imperfeito que deve ser celebrado. O sinal irregular no rosto da atriz é o que lhe dá beleza e harmonia. Estranho ali seria uma simetria. Nessa trilha, Marilyn provoca estranheza no quadro do Andy Warhol. Na foto original era retratada com fascínio e despreocupação. No entanto, as alterações do artista na imagem criam atmosferas distintas e destacam a natureza ilusória do estrelato. Esta obra traz à tona a estética do inacabado, do imperfeito, porém dentro de uma ordem definida pelo artífice.

Nada dura, nada é completo: nada é perfeito. É a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. Na arquitetura e design, este espírito do tempo se revela no chamado estilo INC. Essa pegada mais “bruta”, em contraste com uma decoração sofisticada, dá um sentimento especial aos ambientes. Como no quadro de Andy, como na física de Gleisel, assim a arquitetura e o design desconstroem para harmonizar. Com muita delicadeza trata o concreto e revela uma sobriedade do industrial. Aparecem então nos projetos, os nervos e ossos do Habitat com fios expostos, tubulações a mostra e vigas aparentes. Móveis antigos são reformados, sem perder a memória do tempo que se foi, estilo que por sua vez foi inspirado na estética do pitoresco e seus tons terrosos e cores neutras.

Assim como a estética do pitoresco valia-se da associação entre paisagem e ruínas – sobretudo as cobertas de musgos e trepadeiras, que trazem consigo sugestões fantásticas e /ou sentimentais – assim o faz o estilo industrial mantendo o aspecto do ambiente mais cru, utilizando cores sóbrias, materiais e texturas como madeira, tijolos, concreto e metal. O segredo é equilibrar todos os elementos e aceitar a desordem implícita. O imperfeito, uma vez ordenado, nos aquieta, então a arte ao invés de negar a realidade, a expõe. Na prática, são projetos onde a peculiaridade trazida pelo
inacabado revela a beleza do imperfeito. Mais que tendência passageira, um espirito destes tempos.

Projeto: S-Andrade Design /Foto: Ata Photograph (divulgação)

 

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